domingo, 8 de maio de 2016

O veganismo não é a mãe de todas as causas


Nesse dia das mães, vamos destruir (“desconstruir” é um eufemismo pavoroso) uma maternidade: a maternidade do veganismo. Em tempo de “tudo é culpa da sociedade, nada é culpa do indivíduo, a menos que o indivíduo seja meu inimigo”, está comum lermos que “o pobre não tem condições de ser vegano” e que “veganismo é privilégio”. E de onde vêm essas pontuações? Dos que defendem “grupos humanos menos favorecidos” em primeiríssimo lugar e acham que é justo uma vaca ser trancafiada num cubículo, sem socializar, para ser estuprada, ter seu filho arrancado dela e gerar o leite que vai parar na mesa do pobre que não pode ficar sem achocolatado de manhã. Interessantemente, os autores de textos vibrados sobre o “elitismo” da filosofia vegana costumam ser vegetarianos. É um papel engraçado que o sujeito usa como uma dádiva argumentativa que causará comoção no tribunal da internet: “eu não como carne, então posso falar” ou “e não digo isso porque não respeito os direitos animais, tanto é que sou vegetariano”. Um vegetariano que fala coisas que retrocederão as passadas da causa não está em seu direito de fala real, pois está prejudicando animais não-humanos que não podem se defender de seu suposto e autointitulado porta-voz. Para seu vegetarianismo fajuto, colega, o meu mais sincero foda-se, porque se a abolição da escravidão animal depender da sua vontade de ser justiceiro de oprimidos-que-não-sabem-o-que-fazem, daqui a pouco estaremos proibidos, pelo politicamente corretíssimo, de fazer qualquer ativismo, pois em algum lugar "alguém que não tem escolha" sairá "ofendido" com a bandeira dos direitos animais. 

Eu não sou pobre. Mas eu já fui pobre. Meus pais e eu moramos de favor em casa de parentes, depois fomos morar numa casinha de madeira no alto de um morro que fica num dos bairros mais pobres de Blumenau. Se tem uma coisa que não entrava na nossa casa em momentos de crise financeira era carne. Meus vizinhos pobres comiam pão feito em casa sem leite, sem ovos, tomavam café preto, o almoço tradicional era feijão, arroz e farinha. Quem conseguia cesta básica se arranjava com o que havia nela e outros itens comprava do próprio salário. Minha mãe fazia pão em casa, que comíamos com margarina. Carne era luxo: só tínhamos aos finais de semana. Nossa situação melhorou aos poucos, e aí os derivados de animais começaram a entrar na mesa: era queijo para colocar no pão, café com leite, um ovo frito no almoço, com “sorte” tínhamos linguiça ou bucho bovino (aquela carne fedorenta e barata que hoje em dia se tornou cara) para comer de vez em quando. Passamos muitos anos comendo majoritariamente miúdos aos sábados e domingos, porque era a carne pela qual podíamos pagar. Éramos semivegetarianos por obrigação. Entre comprar um quilo de carne e comprar um quilo de feijão, valia muito mais a pena comprar o feijão, que era barato e crescia ao ser cozido. Se alguém viesse nos falar, naquela época, sobre vegetarianismo pensado, teríamos nos perguntado por que uma pessoa opta comer como se fosse pobre – a carne diária representava fartura, bonança, coisa que não tínhamos. 

Hoje, a carne do pobre está fortemente associada à sua pobreza, de acordo com os justiceiros vegetarianos (aplaudidos por vegetarianos que se sentem culpados pela situação da periferia e por carnistas que arranjaram mais um motivo para execrar veganos e continuar se empanturrando de carne “porque o veganismo não se importa com os problemas que atingem negros, mulheres, pobres e trans”). Poupar o pobre da carne é não ter compaixão, é achar que sua condição de privilegiado deve se estender a outras classes desfavorecidas. Não entendo que miséria intelectual entope de estopa a cabeça dessas pessoas. Qual é a dificuldade em um pobre se tornar vegano se a carne é um item caro e supérfluo do supermercado? “Mas o pobre precisa sair para se alimentar durante o expediente e não encontra comidas veganas.” O bípede cujo cérebro não acompanhou a evolução das pernas fala isso pensando que “comidas veganas” são os classudos: hambúrguer de grão-de-bico, salsicha de soja defumada, risoto de arroz selvagem e feijão-fradinho, macarrão de quinoa e amaranto, torta crudívora de castanhas, damasco e gojiberry, salada de agrião orgânico temperado com sal rosa do Himalaia, almôndegas de alcachofra e trigo sarraceno. É verdade, esses itens, que a imensa maioria dos veganos não compra, são veganos. Mas sabe o que também é vegano (e que a imensa maioria dos veganos compra)? Toda a seção de hortifrúti. Sabe o que é vegano, para você que é pobre e é obrigado a comer na rua? Requisitar a marmita básica ali no restaurante – arroz, feijão, bife e salada – e pedir, veja só, para retirar o bife. Sabe um bom lanche para a tarde “do pobre que se obriga a ir à lanchonete ao lado do trabalho e comer um pastel de carne”? Banana. Uma é pouco? Coma quatro. “Ah, mas o pobre não é obrigado a essa humilhação de se entupir de banana.” Tudo bem, deixemos que só eu, “privilegiada”, passe por essa “humilhação” das bananas: pão francês, na maioria das vezes, não leva nada de origem animal. Faça seu café da tarde com pão francês, café preto e margarina – apesar de serem puro lixo químico na composição, boa parte das margarinas não contém nada de origem animal. “Ah, mas o pobre do pobre não tem que comer um negócio que você mesma está dizendo que é puro lixo químico!” Então o pobre faça o que na minha casa a gente aprendeu, mesmo quando comíamos restos de animais, a fazer rapidamente para passar no pão: frite tomate picadinho, cebola, azeite e sal. Dá um antepasto ótimo e não leva nem 15 minutos para ficar pronto – ou será que o pobre não tem 15 minutos para cozinhar uma coisinha? Interessante o novo pobre: no tempo em que eu era pobre, nós cozinhávamos bastante, justamente porque isso nos fazia poupar dinheiro. 

O pobre tem acesso à internet? Que bom, aí já pode deixar de alegar inocência, porque a internet ensina quase tudo que há para se conhecer nesse mundo. Qualquer prato que você procure com o nome “vegano” atrás virá com uma receita. Bolo de banana vegano? Há centenas. Feijoada vegana? Várias. Pão vegano? Muitos e de diversos sabores. “Mas o pobre não encontra salsicha vegana barata para fazer um cachorro-quente como ensinam essas receitas; essas salsichas são para privilegiados.” Deixem-me ver se entendi: um animal precisa ser confinado, poupado de socialização, impedido de receber luz solar, engordar à força, tomar antibióticos e hormônios, ver seus pares serem mortos e depois morrer dolorosamente só para que o “pobre do humano pobre” não precise abdicar de comer um cachorro-quente com a namorada nos finais de semana? Não enxergo outro nome para isso a não ser antropocentrismo. Entendo sermos antropocêntricos em nome de necessidades – entre matar um rato e matar um homem, opto, com profundo pesar por ter de escolher, matar o rato; se eu fosse um esquimó e precisasse de carne para sobreviver numa terra onde não é possível praticar a agricultura, eu caçaria animais –, mas não há desculpa alguma para causar sofrimento a um ser senciente em nome de uma prática alimentícia fútil. Vejam: agora que eu moro em São Paulo, onde há de tudo, é que eu compro tofu defumado para colocar no feijão. O que eu fazia antes? a) Não era vegana, pois não era justo que eu tivesse que comer feijão temperado apenas com alho; b) Era vegana da forma que me era acessível, que, aliás, estava excelente, pois um supermercado comum podia oferecer tudo que eu precisava para ter uma alimentação variada, nutritiva e saborosa. A resposta é óbvia e de acordo com o bom senso. 

Até ano passado eu morava em Blumenau, onde sequer há restaurante ovolactovegetariano. Se eu tinha que almoçar no trabalho, levava marmita de casa. Se surgia um imprevisto, eu almoçava onde havia bufê: enchia o prato no setor de salada, torcia para o feijão não ter bacon (em restaurantes populares geralmente não tem), pegava arroz, batata e algum refogado de legumes. Saía com os amigos para beber? Era cerveja e batata frita, porque ser nenhum com olhos tem que ser torturado e massacrado para que eu, coitadinha!, tivesse maior variedade quando estava em bares com amigos. Vontade de fazer um lanche quando estava terminando minha caminhada? Parava numa casa de sucos para tomar um suco de açaí com caldo de cana. Estava com pouco dinheiro e sem tempo de cozinhar? Ia à feira e enchia sacolas com bananas, mamões e tangerinas. Gostaria de saber quais dessas coisas são assim tão profundamente inacessíveis ao pobre. Mas digamos que o pobre não tenha acesso à internet, que ele trabalhe em dois empregos, estude, não tenha tempo nenhum de cozinhar, não consiga enxergar as letras miúdas dos rótulos para saber se essa ou aquela comida leva leite e ovos. Isso não dá ao pobre o direito de não fazer nada só porque não pode fazer tudo. É mais complicado fiscalizar o leite e os ovos dos alimentos que comemos fora? É. Se isso é imensamente difícil para o pobre, ele pode muito bem fazer uma parte do papel deixando de comer apenas as carnes, tornando-se, assim, ovolactovegetariano. Ele vai às pressas à lanchonete que fica entre um emprego e outro e come um pastel de palmito, depois ele se vira entre o segundo emprego e o estudo com um pão de queijo. Não é o ideal, mas já que o pobre divulgado das redes sociais é um sofredor que trabalha 14h por dia, se locomove por 4h e dorme 6h, é uma solução viável. O veganismo é muito complicado para o pobre? O ovolactovegetarianismo está aí para ajudá-lo, já que ele é tão cheio de vontade de ajudar os animais, mas tão sem oportunidade por causa de sua condição social.

Até quando os animais terão que viver um holocausto diário para que os seres humanos – e, agora, as minorias humanas – possam satisfazer suas comodidades e seus paladares? A nova desculpa é “o pobre da periferia”, esse totem que nem sabe que está sendo citado em discussões superficialmente politizadas na internet por gente que precisa 1. mostrar serviço; 2. aliviar-se com outra justificativa para continuar comendo cadáveres sem necessidade (antes era “o leão que come a zebra”, agora é “não sou vegano porque o veganismo é um privilégio que não alcança os pobres da periferia” – dito, muitas vezes, por alguém que não é um pobre da periferia). 

O que eu vejo é que os porta-vozes das minorias acham que o veganismo precisa ser a mãe de todas as causas; o vegano agora precisa acordar às 5h da manhã, cozinhar refeições livres de crueldade e entregar para os pobres – ou não tem o direito de achar que o pobre precisa aderir ao veganismo, pois, de repente, carne, leite e ovos se tornaram itens de primeira necessidade. Cobraram-nos feminismo. Cobraram-nos tolerar todas as causas de uma das alas do movimento negro (veganos brancos quererem acabar com sacrifício de animais em rituais de religiões afro é “opressão”) – não, não podíamos escolher dar ouvido aos negros que também queriam acabar rapidamente com os sacrifícios. Cobraram-nos acolher os pobres, tolerar e entender que eles comem salsicha com macarrão ao voltar do trabalho “por falta de opções”. Cobraram-nos esquerdismo, porque a libertação animal só pode ocorrer depois que todos forem severamente iguais e um vegano que defenda o livre-mercado é um contrasenso, pois defender pautas liberais é "ter ódio de pobres". Dei uma olhada nos outros espaços frequentados por esses justiceiros que querem dizer o que o veganismo é obrigado a ser para além dos animais. Tentavam aconselhar, em grupos feministas, que mulheres carnistas entendessem o que passam as vacas leiteiras e aderissem ao veganismo? Não. Quando cobrei essas posições de feministas “de grande porte”, veganas justiceiras da linha animais-em-quinto-plano me disseram que aquele “não era o espaço adequado para debater sobre sofrimento animal”, pois se tratava de um site feminista. (Então por que sempre falam de feminismo em páginas sobre sofrimento animal?) Também não vi a mesma força dentro de páginas do movimento negro para mostrar aos negros comedores de carne que o que os animais passam é escravidão, que eles são torturados e que alguém que prega a não-exploração de pessoas deve, por coerência, cobrar da sociedade a não exploração de animais. Insistir para os pobres se tornarem veganos e dizer que o que eles comem diariamente é animal morto que poderia ser um cachorro na China? “Falta de tato, xenofobia e ódio aos pobres.” Num mundo onde os animais são as maiores vítimas dentre todas as vítimas, veganos precisam ceder seus lugares de manifestação pró-animais para ter comiseração por todas as causas humanas, que devem vir antes. Bom, isso é falta de tato, é falta de valorar as causas e as coisas. Justiceiros reivindicam tanto a pureza de seus lugares de fala. Os animais não podem falar, então os veganos pelos animais (opostos ferrenhos aos “veganos pelas pessoas”) criaram espaços para poder defender animais – e não são respeitados nisso. Se ninguém vem a público para dizer “uso roupa que vem de mão-de-obra escrava porque só os privilegiados podem usar roupas fabricadas no Brasil por empresas sérias” – e se alguém dissesse isso, seria apedrejado pela polícia da internet, pronta a defender todos os oprimidos que ela supõe representar –, por que é correto que alguém defenda a exploração animal porque é “elitismo”, “privilégio” ser vegano? Respondo: porque os animais não-humanos ainda estão debaixo do chinelo, mesmo para muitos "veganos". Porque eles têm que esperar, eles têm que entender que uma mulher que recebe um assovio na rua tem que virar manchete, mas que os milhares de vacas estupradas todos os dias é coisa para outra hora porque o pobre não consegue tomar café sem leite. 

Não, nós, veganos, não somos um grupo coeso que faz um discurso só. Eu execro qualquer pessoa que não esteja explorando animais diretamente, mas que vá para a frente do computador para fazer um desserviço à causa animal e ainda receba palmas de carnista; vegano que acha que é “desrespeitoso” chamar todo mundo que come carne de carniceiro porque “temos que entender as pessoas” – o mesmo vegano que exclui amigos por rivalidades políticas, mas mantém churrasqueiro que zomba de animais entre seus contatos. Não mintam, veganos pelas pessoas. As causas não são “consideradas igualmente” por vocês. Quando vocês dizem que é preciso esperar que a sociedade de classes seja abolida para que todos tenham condições de aderir à alimentação vegana, vocês não dizem isso pensando nos animais. Se vocês tivessem o vídeo de um porco agonizando dentro de um matadouro na frente de vocês, não haveria tanta relatividade, tanto deixe estar. Sugiro que antes de falar qualquer coisa que seja uma crítica ao veganismo, assistam a trechos do Terráqueos. Às vezes a gente precisa voltar a ver cenas chocantes da realidade animal para entender por que motivo, mesmo, nos tornamos veganos, e a quem o veganismo diz respeito.

domingo, 22 de março de 2015

Remédios; ou Caçadores de contradições


Enquanto alguns querem mudar o rumo das coisas, outros querem apenas encontrar contradições na prática daqueles que querem mudar o rumo das coisas. Os avaliadores. Os julgadores. Os críticos que cruzam os braços e apontam para as pequenas falhas alheias com o queixo, com desdém. Os acomodados. Os que têm argumentos que surgem por geração espontânea, sem leituras, sem base. Um vegano só pode incomodar essa gente. Num ambiente de trabalho modorrento em que cada funcionário exerce apenas o mínimo de serviço para manter seu salário, um novo empregado que de repente se põe a trabalhar da forma correta é escrachado por seus pares. Como você ousa mudar o nosso ritmo, como você ousa se destacar, como ousa querer fazer o que é certo? Isso é o que acontece com a pessoa que está interessada em corroer os grilhões da opressão com sua conduta diária. Ela é admirada e seguida por quase ninguém; em contrapartida, recebe uma saraivada de ódio. Mas quem esse vegano pensa que é para agir de forma ética e querer regrar o modo como tratamos os animais? É muita petulância esse vegano achar que vai "salvar o planeta"; tem um vídeo de um humorista que derruba muito bem essa pretensão de salvar o planeta. Não sei se essa estirpe tem solução. Só sei que enfraquecer a própria conduta por causa deles é fazer tudo o que eles querem, no fim das contas. Sim, seja como nós, coma, durma, trabalhe e morra, só isso. Não se preocupe com questões que não dizem respeito à sua realidade imediata. Ignore o discurso chato de quem se preocupa com problemas éticos. Abra uma cerveja, ria de qualquer bobagem, mantenha conversas ocas. Os animais que se explodam, só não quero que mexam com meu cachorro. Humanos que apareceram no mundo como uma peça de produção em série que vai fazer apenas o necessário para perpetuar o processo e um dia dar lugar a outros que farão as mesmas coisas programadas sem contestação. Se caçar contradições no modus operandi alheio é a única ação diferente que você realiza em sua rotina tão ritmada e constante, saiba que não existe nenhum glamour na sua vidinha de merda de crítico. Às vezes a teoria teatral para isso pode se aplicar à existência: àquele que não soube fazer (atuar), resta somente o labor sujo e vagabundo de criticar. Fracassei, e a partir de agora, fulo e com o caráter transformado em uma uva passa, procurarei destruir as tentativas de outros de não fracassar. Estou cansado demais para tentar com eles. Vou aniquilá-los fazendo-os crer que suas ações são inúteis e que é melhor que eles se tornem derrotados como eu

Veganos são abordados com frequência por esses perfis hostis. Ou você vive no meio do mato ou você é apenas um vegano contraditório que anda de ônibus, e ônibus usam rodas que contêm material de origem animal. Veganos têm que aprender a lidar com esse tipo de tática pequena de destruir toda uma grande ideia por causa de problemas que escapam ao controle. Caçador de contradições: um vegano faz o que está ao alcance dele, ele tenta minimizar ao máximo o impacto que suas escolhas repercutem na vida de animais. Mas ele, o vegano, vive em sociedade, e sempre haverá algo que é errado fazer, mas é obrigatório fazer para a sobrevivência sadia. É verdade, rodas de ônibus são compostas de material retirado de bois, mas isso não fará com que um vegano abandone tudo por causa de uma fatalidade que ele não pôde impedir. Não é porque a roda do ônibus que eu uso tem cartilagem bovina que eu vou dizer que o veganismo é impossível e voltar a comer carne ou passar a usar peles. Eu posso contribuir para a melhoria da condição animal não comendo carnes, não comprando produtos testados em animais, ajudando instituições. Eu faço o que eu posso. E você, que pode muito, mas não faz nada? 

Na esteira dessas cobranças estão os remédios. Veganos que tomam remédios e ao mesmo tempo advogam que não se deve testar medicamentos em animais estão caindo em grave contradição. É uma contradição, concordo, mas é uma contradição, até o momento, essencial para a vida e sobre a qual um vegano doente não tem controle. E não é somente o vegano que cai em contradição em relação a seus ideais por causa da espécie de sociedade mórbida em que está inserido. Não haverá uma mísera pessoa razoável que diga ser favorável à escravidão ou a regimes de semi-escravidão em que pessoas recebem mixarias para trabalhar em jornadas exaustivas que quase remontam ao período da primeira fase da Revolução Industrial, nem haverá pessoa que diga ser favorável ao trabalho escravo infantil. Pois todas essas pessoas lúcidas contribuem, de alguma forma, com a indústria que promove esse tipo de negação dos direitos humanos, e essas pessoas, é claro, estão caindo em alguma contradição. Mas quem vai julgá-las severamente? Só se for um maníaco, porque hoje é praticamente impossível escapar de qualquer contribuição a essas práticas. Não somente nossas roupas vêm da China. Nossas panelas, nossos brinquedos, nossos utensílios básicos para o lar (lanternas, lâmpadas), itens de papelaria, alguns livros (desenhados e montados aqui, impressos na China), aparelhos eletrônicos, eletrodomésticos, presilhas de cabelo, tênis, sandálias, bolsas, armações de óculos, e inúmeras outras coisas. Nem o mais bravo defensor dos direitos humanos escapará de ter em casa algo feito na China. Há equipamentos que são montados em outros países, mas as peças internas que os compõem são feitas na China. Tênis especializados para corredores são quase todos feitos na China, no Vietnã, na Índia. Todos esses objetos que nos ajudam a viver têm resquício de trabalho escravo, adulto ou infantil. Por isso devemos achar que os direitos humanos não valem para nada? A mesma pessoa razoável, ao ser confrontada com essa realidade, não dirá que é preciso rejeitar a luta pelos direitos humanos porque é impossível que alguém seja plenamente condizente a seus ideais humanitários. Não: ela dirá que é preciso continuar vivendo de modo a, na medida do possível, evitar aquisições e práticas que nos façam conflitar com nossos princípios e que junto a isso deve-se lutar para que a situação mude. É esse o projeto pessoal que um indivíduo são e ético faz para si mesmo. Ele não vai desistir. Mas ele vai fazer o que pode para que tudo melhore e o mundo se torne menos opressivo. É esse o pensamento que o vegano que toma remédios tem. E ele é massacrado por isso. 

Nunca gostei de tomar remédios. Quando criança, por implicância, quando adulta, por convicção. Na minha modesta opinião, vivemos a era do remédio. Um medicamento que deveria ser ingerido em último caso é a primeira e ligeira opção que é levada na bolsa. Andar com remédios na bolsa quando não se está doente de fato é uma das maiores demonstrações de nosso vício e nosso despreparo para lidar com pequenas dores que poderiam ser facilmente administradas. Hoje, não tomo remédios porque acredito que, antes de mais nada, meu corpo precisa aprender a lidar com seus problemas. Um corpo a que não é dada a oportunidade de se defender se acostuma a ser um corpo preguiçoso e covarde. Quando ao menor sinal de resfriado você toma uma bomba química, está apenas estimulando a incompetência da sua imunidade. Eu preciso de uma máquina de sobrevivência que saiba combater um mal tão minúsculo quanto um resfriado. Se meu organismo não for capaz de guerrear com probleminhas, como ele reagirá diante de catástrofes? No livro Virei vegetariano, e agora?, do Dr. Eric Slywitch, há uma passagem interessante sobre o tema: 

"Na minha opinião, quanto menos intervenção medicamentosa, melhor. Quanto mais deixarmos o corpo resolver as próprias disfunções, melhor. Há o momento apropriado para cada intervenção. Como diz o doutor Antônio Cláudio Duarte, meu amigo, 'alimento, treinamento e medicamento, cada um no seu momento'. Ou seja, às vezes o tratamento é feito com alimentação; às vezes, com atividade física; às vezes, com medicamentos". 

Certamente não são todos os médicos que possuem essa mente ética para a questão dos remédios. Lembro que uma vez, menor de idade, procurei uma médica clínica geral para saber o que eu podia fazer a respeito da minha forte ansiedade. Ela me receitou um remédio tarja preta, uma dose pequena que eu deveria tomar diariamente. De volta a casa, mostrei à minha mãe e na mesma hora ela me mandou jogar fora a receita. Concordei com a postura dela. Por que uma clínica geral resolve me receitar um remédio tão forte e que causa dependência sem pensar duas vezes? Eu precisava de uma conversa sobre formas naturais de amenizar a ansiedade e um encaminhamento para um especialista, e não de um remédio pesado logo de cara receitado por alguém que não sabia a real extensão do meu problema. É a mesma banalização do medicamento que ocorre com diversas crianças levadas a médicos por pais que estão certos dos transtornos de comportamento de seus filhos como doença, e não como falta de disciplina. Acontece que esses pais deveriam ser podados no consultório, e não estimulados. São raros os médicos que percebem na alegada hiperatividade e no suposto déficit de atenção um problema que deve ser resolvido no ambiente familiar e escolar. Não, remédios são receitados sem pestanejar, e de repente se descobre nas escolas que 15% ou mais das crianças têm algum problema de aprendizagem tratado com medicamentos. As causas são mascaradas, os pais não querem cair em si sobre eles serem a razão disso tudo. A era do remédio se consagra e infla. 

Esse é o tipo de discussão em que um vegano precisa se envolver. Uma coisa é um vegano tomar remédios testados em animais porque precisa, outra coisa é ele tomar esses remédios porque está viciado neles e acha que qualquer dorzinha de cabeça pede um bom comprimido. Necessidade de remédio é quando se está com uma bactéria da qual o corpo não consegue se livrar, quando está se fazendo um tratamento imprescindível ou se sente muita dor. Fora isso, remédios devem ser evitados. Passo meses (até mais de um ano) sem colocar qualquer remédio para dentro de mim. Tenho a sorte genética de não possuir dores de cabeça (uma graça que aparentemente herdei do meu pai) e talvez esse dado faça com que pensem que assim é fácil não tomar remédios, já que não preciso deles por não sentir as dores que a maioria das pessoas sente. Mas eu tenho cólicas menstruais, e sempre no primeiro dia do fluxo. A dor é incômoda, só que sempre passa e não é insuportável. Opto por não me medicar. Por cólicas menos intensas muitas mulheres se medicam, mas eu não recomendo tal atitude. Aprender a lidar com pequenas dores "naturais" faz parte de nosso amadurecimento (se a dor não for pequena, é bom procurar um médico, pois cólicas violentas podem ser sinal de problemas graves). Não tomo remédios porque sei que em poucas horas minha dor vai passar e consigo administrar essa condição. Quando tive cólicas intestinais, eu podia ter me satisfeito tomando remédios diariamente. Preferi levar meus sintomas a um médico para saber a real causa da dor, que acabei descobrindo ser do meu mau hábito de comer feijão demais. Muitas vezes uma dor é um sinal enviado pelo corpo para dizer que algo vai mal. Ele não está necessariamente pedindo um remédio. Ele quer que você descubra a raiz do problema e evite aquilo que causa a dor. 

Quando um vegano toma um remédio, ele deve se questionar se aquilo é mesmo necessário. Animais sofrem e morrem até que um remédio supostamente seguro vá parar nas farmácias (supostamente porque há inúmeros remédios testados em animais que não mostram o mesmo efeito que teriam se testados em humanos, fazendo com que o teste seja inútil e o remédio nem sempre seja seguro), então precisamos pensar se vale mesmo a pena abrir essa brecha em nossa conduta para ingerir algo que pode ser dispensável. Fazemos o que podemos. Um vegano deve ter o direito de andar com sua consciência tranquila quando está infectado por uma bactéria séria e precisa ingerir antibióticos, sem se preocupar com o julgamento de um caçador de contradições. Não há contradição maior do que decidir participar deste mundo e levar uma vida como uma carcaça. Se você não tem nada para fazer por aqui, há um dom que somente os humanos possuem e do qual você pode tirar usufruto, que é a capacidade de suicídio. Deixar subentendido, para um vegano que você critica, "cara, deixe dessas coisas e dessas lutas, a vida não vale a pena" e continuar vivendo é, na minha opinião, uma imensa contradição. Ter um corpo vivo que se movimenta e dentro uma alma morta imersa em inércia também. Nem por isso abordo toda carcaça para sugerir que se mate. Cada um deve saber ver o limite das próprias contradições.  



PARA LER MAIS: entrevista com o médico americano Ray Greek, que se diz contra os testes em animais não por motivos éticos, mas científicos (ou seja, ele não é um cientista da Universidade Vegana defendendo a causa animal na ciência pelos motivos éticos que nós, veganos, costumamos defender, mas porque cientificamente testes em animais são inúteis e gastam bilhões à toa). A entrevista foi concedida originalmente à revista VEJA. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Quem quer fazer, faz. Quem não quer, arranja desculpas


Algumas pessoas já entenderam um pouco dos pontos a respeito do veganismo. Mas insistem em ser carnistas contumazes. Para que não fiquem em tão péssimas condições após não poder mais alegar inocência diante dos fatos, essas pessoas procuram desculpas para continuar comendo carne. Não me recordo de alguma escusa que faça sentido, já que nenhuma delas vem de um esquimó ou de alguém que está numa ilha com plantas impalatáveis e animais. Segue um breviário das mais clássicas. 

Como carne porque meus ancestrais comiam carne
Já que seus ancestrais são seu parâmetro comportamental, você poderia adotar todo o pacote deles. Morar numa casinha com aquecimento artificial no inverno e proteger-se da chuva com uma sombrinha são coisas que seus ancestrais não faziam. Também não se limpavam com papel higiênico. Sequer tinham banheiro. Da próxima vez que quiser copiar seus ancestrais, por favor, comece o treinamento pelas suas necessidades escatológicas. Vá ao mato, fique de cócoras e limpe-se com folhas. 

Como carne porque leões comem carne
Outra coisa muito natural no mundo desses felinos selvagens é estuprar fêmeas, matar e comer filhotes, não escovar os dentes. Um homem que estupra uma mulher não se livrará da pena se disser que leões também estupram fêmeas. 

Como carne porque todo mundo come carne, é um hábito, é uma cultura
A cultura é mutável. O que é aceito pela multidão muda e o que é rechaçado por ela também. Alguns senhores de escravos provavelmente só tinham escravos "porque todo mundo tinha". Se você percebe um erro na sua cultura, pode se opor a ele e pode lutar para que ele seja visto por toda a sociedade. O mundo ocidental não está pronto só porque as mulheres e os negros já possuem seus direitos. A mesma pessoa que condena a cultura de outras épocas gosta de se agarrar à sua cultura como se ela fosse genética. É fácil sentir pena de negros que eram escravos no passado quando isso já não faz mais parte da sua cultura, quando a economia dos seus pares não depende dessa mão-de-obra habitual. E por que ficamos horrorizados com países que têm como cultura casar meninas de oito anos com velhos? Por que ficamos horrorizados com países que cortam o clitóris das moças para que não sintam prazer? Por que achamos cruéis os chineses que comem cachorros? Isso tudo também é cultura. 

Como carne porque o sabor é maravilhoso. Não consigo não comer, é mais forte do que eu
Sexo forçado é maravilhoso para estupradores. Abuso infantil é "mais forte" do que a consciência de pedófilos, que às vezes cometem crimes contra crianças por causa do impulso da delícia. "Mas pedofilia e estupro são crimes, comer carne, não". Pedofilia e estupro não são crimes desde que um rude homem ficou um pouco extravagante e se tornou Homo sapiens. Essas coisas são crimes porque alguém lutou para que se tornassem crimes, e em alguns países, dependendo da situação, nem crimes são, ninguém é punido por estuprar uma mulher "infiel". Não esperemos para fazer o certo só depois que a lei exigir. Façamos o certo para que nossa conduta influencie a lei. Se a lei, a cultura, o hábito são imorais, desobedeça. 

Como carne porque tenho vida social e um vegetariano sempre se sente mal quando precisa comer fora com os amigos
Eu me sentia mal quando saía para comer com meus "amigos carnistas". Primeiro, porque me sentia celebrando trivialidades com nazistas nos anos 30; segundo, porque eu não tinha espírito para ver pessoas hipócritas comendo carne como se elas não soubessem da procedência daquilo. Mesmo assim, naquela época, quem abria o quadro "veganismo em pauta" não era eu. Não falo de veganismo o tempo todo, não tenho muita paciência para passar horas falando sobre o tema com quem trata isso apenas como freak show: "vamos ouvir o que a bizarra tem a dizer sobre essa alimentação estranha da qual nunca ouvimos falar antes". Por causa dessas situações e por não suportar alienação por escolha ("olha, Barbara, sei de tudo o que acontece, sinto peninha, mas optei pela alienação e seguirei comendo carne de olhos fechados"), afastei-me dessas companhias. Não foi duro, já que desde a infância tenho aprimorado minha misantropia, mas é claro que nem todo mundo é obrigado a ter logo de cara esse desprendimento social e esse bastar-se a si mesmo. Deixar de fazer o que você considera moralmente correto só por causa de festinhas e de amigos (que vêm e vão, não se esqueça) me parece no mínimo uma covardia. Se quer continuar com essas companhias, simplesmente leve suas comidas nas celebrações, leve suas bebidas. No começo, pode parecer estranho. Depois de um tempo se tornará natural. 

Como carne porque vegetarianos se acham superiores
Lembro que o Lobão disse, uma vez, ter sido vegetariano. Mas abandonou a "causa" porque não aguentava mais a soberba dos vegetarianos, sempre se achando superiores e dizendo às pessoas o que fazer. Obviamente, alguém que deixa de ser vegetariano/vegano por causa do grupo não está nem aí para o sofrimento animal. A pessoa talvez queira se encaixar num grupo, que é algo tão normal (e lamentável) entre seres humanos que vão buscando rebanhos para poderem se sentir englobados e vivos. Conheço inúmeros veganos que são insuportáveis, ignorantes, mais preocupados com humanos do que com animais, veganos que vitimizam qualquer classe, veganos que leem sobre a morte de um homossexual e antes de saber o que houve já gritam que foi crime por homofobia. Estou me lixando para eles no que concerne ao meu veganismo. Eu sou vegana por causa dos animais, e não para pertencer a um grupo alternativo. Não gosto de grupos, não gosto de ter que adotar os pacotes completos que os grupos tentam empurrar para a viagem da minha vida. Estudo História. Tenho horror a uma porção de historiadores e outros estudantes de História, não gosto da prepotência de alguns, não gosto da ironia full time. Deixei de estudar História por isso? Não, eu resolvi estudar História porque eu amo a História, e não para me juntar a um grupo de críticos num bar na hora das aulas. 
Sobre a tal superioridade dos veganos: qual é o sujeito que defende uma ideia revolucionária e não se pensa melhor porque tem essa clareza de pensamento? Eu só defendo ideias que eu considero superiores. Automaticamente, considero-me superior. A diferença entre minha auto-estima nesse sentido e a auto-estima de quem é bilionário ou famoso é que eu quero que todos possam ser superiores como eu, eu quero que todos venham para cá, onde as ideias são mais claras e onde a ética alcança as maiores vítimas de todos os tempos. O bilionário que se acha superior quer que todos se tornem como ele? Não, isso vai tirá-lo de seu protagonismo. O famoso quer que todos sejam famosos? Jamais, pois a banalização da fama fará com que sua superioridade perca razão de ser. Eu, vegana com ideias superiores, quero, com todas as minhas forças, que todo mundo possa ser superior como eu, que todo mundo veja os animais com o olhar que eu vejo. Não quero ser isolada nesse pensamento para que eu me destaque. Pelo contrário: não vejo a hora de deixar de ser a diferente, a destacada, para me tornar apenas mais uma dentre tantos novos veganos. Quero que todos possam entender o que eu já entendo. Portanto, meu senso de superioridade não é mesquinho. E mesmo que fosse: isso não seria motivo para você não ser vegano. Veganismo diz respeito a inúmeras coisas (saúde humana, meio ambiente, psicologia do trabalhador), mas é prioritariamente sobre animais. Seja vegano pelos animais, e não pelas pessoas. 

Como carne porque eu deixar de comer não fará nenhuma diferença nesse universo de animais maltratados
Fará diferença, sim. Deixando, sozinho, de comer carne, você poupará a vida de dezenas de animais. Deixar de fazer o que é possível porque só se pode fazer pouco é não enxergar além e é não pensar nos animais de fato. Quando eu me tornei vegana, deixei de consumir produtos de origem animal e poupei/ estou poupando/ pouparei o sofrimento de muitos animais. Mas mais do que isso: poucos meses depois de me tornar vegana, insisti para que meus pais assistissem a documentários sobre a condição animal. Meu pai reduziu seu consumo de alimentos de origem animal em uns 70% e minha mãe parou de comer carne. Pouco tempo depois, minha mãe também deixou de comer leite e ovos. Depois, dialogamos com uma tia minha. Hoje, essa tia não come mais carne nenhuma. Ou seja: eu me tornei vegana e isso propiciou que mais uma pessoa se tornasse vegana, uma pessoa se tornasse ovolactovegetariana e uma pessoa reduzisse em mais da metade seu consumo de produtos de origem animal. Meu veganismo individual valeu muito. 
Desisti do Facebook porque era uma perda de tempo, uma rede de fofocas e um desgaste. Mas preciso reconhecer que há coisas boas lá, como algumas páginas públicas. A melhor página que existe atualmente é a Vegan Sidekick (existe também uma página com as tirinhas traduzidas para o português AQUI), criada por um rapaz que faz quadrinhos simples retratando os argumentos furados que carnistas usam para justificar sua crueldade cotidiana. O humor é perfeito, a crítica é certeira e ele consegue abordar variados pontos objetivamente (o que eu levo parágrafos para comentar aqui, ele leva quatro quadrinhos para demolir lá). Um quadrinho postado recentemente reflete bem a ideia do "não vou fazer nada já que não posso fazer tudo": 

"Rápido! Há pessoas se afogando, nós temos que salvá-las!"
"Mas nós não teremos espaço para todas elas neste bote!"
"Você está certo. Não vamos nos preocupar em salvar nenhuma delas". 
"COMO SOA QUANDO ALGUÉM DIZ QUE VOCÊ NÃO DEVERIA SE IMPORTAR COM VEGANISMO PORQUE VOCÊ NÃO PODE FAZER 100%". 



Como carne porque eu quero
Há coisas que queremos fazer, e não podemos. Há pessoas que querem matar outras e não podem (a não ser que aceitem sofrer as consequências penais), há homens que gostariam de poder estuprar qualquer mulher bonita que vissem na rua. Infelizmente você ainda pode comer carne apenas por querer. Espero que você mude, mas, se não mudar (já que há egoístas irremediáveis que parecerão crianças mimadas até o fim de suas vidas), espero que a sociedade mude apesar de você e um dia você não possa comer carne por mais que queira. Apesar de você, umbiguista inveterado, amanhã há de ser outro dia. 

Saudações veganas ao que leem. Evolução sempre!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Escravidões relativas: negros no Brasil e animais


Não há nada mais belo que uma causa concatenada com outras causas. Deve ser por isso que meu asco reflexo vem à garganta quando vejo um ambientalista que come carne bovina, uma "feminista" que toma leite e chupa os dedos após comer bacon, um comunista que tem dinheiro, mas não contribui com ONG nenhuma. Como já dito neste blog, não acho que todo mundo tenha que estar tinindo na apresentação das lutas pessoais — uma cobrança que pode levar à inércia, pois alguém de poucos pensamentos vai acabar achando que é melhor não fazer nada já que não se pode fazer tudo —, mas a ideia das causas concatenadas serve muito bem para questionar arrogantes de pequenos palanques (estão no trabalho, na universidade, no bar) que muitas vezes apenas advogam em causa própria ou em causas para as quais não é preciso mexer muito mais do que a língua (tagarelice, esse mal de quem mais fala do que reflete) e os dedinhos nas redes sociais. Feministas que não dão a mínima para o estupro diário de vacas leiteiras (é mais fácil a alienação de comer queijo e tomar achocolatado) e ambientalistas que financiam a pecuária (aquela que é a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia, polui rios e emite gases poluentes na atmosfera — informações que eu não tirei do Clubinho Vegano de Ciência Vegana, mas de jornais de ampla circulação, artigos no Scielo e revistas de quaisquer posições políticas) — essa gente precisa sacudir um pouco mais a sua "luta" para poder vociferar com toda essa saliva nos beiços como têm feito. Aí você tenta conversar, mostrar vídeos, indicar leituras e comparar sexismo com racismo com especismo, mas esses cheios de personalidade e firmeza como flocos de cereal insistem em te chamar de "radical", "extremista". Não entendo muito bem como posso ser extremista ao meramente querer que meu alimento não verta sangue e minha bebida não gere sofrimento e morte, só que esse não é o ponto agora. O ponto é a questão escravista relativizada. 

Com o advento das políticas de cotas no Brasil, vimos uma série de manifestações na internet sobre "a dívida que os brancos têm com os negros" por causa do tempo em que nosso país dependia de mão-de-obra escrava. Escravos eram, de modo genérico, aqueles negros que não eram livres pois eram propriedade, e por isso tinham que obedecer seus senhores, seus donos. Escravos eram mercadorias que podiam ser vendidas, torturadas, exploradas à exaustão. Baseados nessa definição, veganos chamam os animais de criação de escravos também. Uma porca não é livre: ela é uma propriedade que pode ser usada da maneira como seu dono, seu senhor, considerar melhor para ele. Um escravo não serve por si, ele serve pelo serviço que pode oferecer. Então comparamos porcos com escravos, por exemplo. E aí um cotista que não conhece a história da África (só ouviu falar, leu um rabisco de alguém do movimento negro numa página sensacionalista, recebeu a caixinha do conhecimento instantâneo de um professor "que luta pelos menos favorecidos") se ergue de sua poltrona e com o dedo em riste questiona como é que ousamos colocar um porco ao lado de um escravo negro. É interessante, porque a situação é quase similar (propriedade, exploração, legitimidade da condição), com a diferença de que o porco é um animal que ainda não foi abolido de sua escravidão e o negro é um animal humano que já é dono de si mesmo. Mas, um momento, realmente não podemos comparar... a escravidão dos animais é muito pior (parece que qualquer situação humana comparada à situação animal fará com que os animais estejam sempre como as reais grandes vítimas). 

Primeiro, eu não entendo a enorme celeuma em cima da questão dos negros. Nunca entendi a dívida que os brancos têm com os negros. Não foram os brancos que inventaram a escravidão. Alguns críticos da escravidão à-brasileira-à-portuguesa falam dos brancos como se eles tivessem invadido a África, tirado os negros de suas vidas tranquilas e livres e de repente os tivessem transformado em escravos. Sim, exatamente como se os brancos tivessem inventado a escravidão. Não foi isso que aconteceu. A escravidão, essa "modalidade" que existiu desde a Antiguidade, já ocorria na África quando os europeus passaram a traficar escravos. Negros eram donos de negros, negros vendiam negros e negros tinham como anseio poder ter seus escravos negros. Portugueses negociavam escravos negros com... negros. No breve texto chamado Histórias mal contadas, contido no livro Divisões perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo (Civilização Brasileira, 2007), o historiador José Roberto Pinto de Góes tira o negro do status de eterna vítima, eterno coitado: 

"A escravidão moderna não era coisa apenas de 'branco'. A demanda da América por escravos aliou-se à oferta dessa mão-de-obra por parte de dirigentes e comerciantes africanos, ligados ao próspero mercado de escravos. A captura de 10 milhões de pessoas, embarcadas em tumbeiros e levadas como escravas para o outro lado do Atlântico, ao longo de quase quatro séculos, não seria possível sem que sólidos interesses ligados ao tráfico transatlântico existissem em ambas as margens do oceano". 

Não gostaria de me alongar, mas não posso deixar de citar a urgente continuação: 

"No Brasil, a escravidão também estava longe de ser coisa de 'branco'. Reparem nos números que comparam Estados Unidos e Brasil. Lá chegaram 400 mil africanos ao todo e, quando a escravidão acabou, existiam 4 milhões de escravos. Aqui chegaram cerca de 3 milhões e 600 mil e, em 1872, havia 1 milhão e 200 mil escravos. Por isso, quando a escravidão acabou lá, havia apenas 5% de pessoas 'de cor', como diziam os censos de então, entre a população livre. No Brasil, em 1872, metade da população livre recenseada era 'de cor'. 
O que explica essa diferença é o fato de a alforria ter sido costume no Brasil, fosse comprada pelo escravo ou concedida pelo proprietário. Isso não era habitual nos Estados Unidos. Aqui era. Estudos demográficos recentes têm revelado que essa população 'de cor' (composta de pardos e pretos, como se dizia à época) vivia, trabalhava, casava, se amancebava, envelhecia e morria do mesmo jeito que os sem cor, digamos assim. E até participava do mercado de escravos, o que era facilitado por uma incessante oferta da mercadoria humana, o que a tornava relativamente barata. Por volta de 1830, na localidade de Sabará, em Minas Gerais, quase a metade dessa população livre de cor possuía escravos. Na região de Campos, em fins do século XVIII, um terço da classe senhorial era composto de descendentes de escravos. Essa farra escravista só foi interrompida em 1850, quando a marinha inglesa, contrariando interesses de muitos brasileiros e africanos, obrigou o Império a pôr fim ao tráfico transatlântico". 

Parece uma história diferente da que grupos vitimistas estão ensinando sobre os escravos negros no Brasil, não é? A isso José Roberto Pinto de Góes chama de "uma caricatura malfeita do passado", que é a visão simplista (negros sempre coitados, brancos sempre malvados, negros sempre escravos, brancos sempre senhores, brancos roubando negros de suas terras e inventando a escravidão) que até mesmo as escolas estão ensinando. É uma lástima que a história — tão complexa, tão cheia de meandros e, quando não maculada, nada maniqueísta — tenha se transformado na bandeira frouxa de uns "guerreiros" mal instruídos. 

Levando em conta que mesmo alguns historiadores estão reduzindo sujeitos históricos às categorias de moços e bandidos, é preciso tomar cuidado com a informação que se toma como fato. Há gente que faz história e há gente que faz polêmica. Se a história fosse assim tão simplória, qualquer taxista poderia trabalhar com ela. Qualquer taxista dá uma olhada num povo, numa determinada época, e classifica as pessoas como boas e más. Parece que nem sempre lemos a história do negro no Brasil, mas, isto sim, o conto de fadas do negro no Brasil

Ronaldo Vainfas, historiador que admiro, concedeu, em 2007, uma pequena entrevista para a Folha de São Paulo sobre as cotas raciais. Não vou colar toda a entrevista aqui, apenas um trechinho que só corrobora o que já foi dito. (O único "erro" dela foi Vainfas achar, na época, que a política de cotas poderia estar em xeque, sendo que hoje nós temos cotas até para concursos públicos.) 

[sobre as cotas e os pedidos de "desculpas" que governantes estavam dando pela participação das nações na escravidão no passado] "Eu não tenho muita simpatia, acho que transferem a responsabilidade no tempo e para quem não tem responsabilidade histórica no processo. Essa história de vitimizar a África, ocultando que a África se envolveu no tráfico, é descabida, mistificadora e historicamente frágil. Havia uma cumplicidade enorme dos reis africanos. Os europeus não conquistaram a África e capturaram eles mesmos os africanos para levar para as Américas". 

*

Para falar da escravidão animal, tive que explicar um pouco, com a ajuda de nobres historiadores, o que foi a escravidão brasileira. Não podia fazer comparação entre essas escravidões se as pessoas costumam achar que os negros viviam em completa desgraça. Agora, com os pingos nos ii, podemos comparar animais escravos e negros escravos. E, comparando, é claro que concluímos que a condição escrava dos animais é absurdamente pior. 


Escravos negros não eram criados para se tornar comida. Escravos negros não eram poupados de quase todas as suas necessidades, em regra. Escravos negros podiam perder seus filhos, mas os senhores não estavam constantemente estuprando escravas para que elas parissem e logo eles pudessem vender os bebês delas para poder inseminá-las na sequência. Escravos negros podiam comprar sua liberdade. Escravos negros podiam ter seus próprios escravos negros. Escravas negras podiam ajudar a dar de mamar aos bebês da casa, mas não eram máquinas de leite que no dia em que não tivessem mais leite para dar seriam mortas para virar capricho do paladar da família branca. Filhos de escravos negros não eram assassinados em massa logo que nasciam nem enjaulados num local escuro. Escravos negros muitas vezes ansiavam se tornar senhores de escravos: animais escravos anseiam apenas a própria liberdade. 

Algumas pessoas gostam de argumentar sobre coisas sérias usando piadas que viram na TV. É possível reconhecer em pouco tempo o sujeito que só veio à vida para comer, excretar, fazer filhos, trabalhar e morrer. Esses dirão que os animais fariam conosco o mesmo que fazemos com eles se estivessem em nosso lugar. É o tipo de princípio que nos levaria à Terceira Guerra Mundial. Se não vamos ser moralistas (não somos tão humanos porque temos moral, porque talhamos éticas?) e optamos por deixar de respeitar aqueles que no-nosso-lugar-fariam-o-mesmo, pararemos de nos importar com os pobres (que na imensa maioria dos casos declaram, com um sorriso, que seu sonho é se tornarem ricos — sim, os ricos que os rebaixam), deixaremos de ajudar os deficientes físicos, jamais faremos o que chamamos de "uma boa ação". A campanha do agasalho será um fiasco. Bill Gates não investirá na busca da cura para a AIDS. Tomaremos todos os nossos pares (animais também são nossos pares, todos evoluímos de um ancestral comum) como inimigos-que-poderiam-ter-sido: sacripantas em potencial. Por que abolimos a escravidão se inclusive o desejo de muitos escravos era ter um escravo? Que o mundo se autodestrua pelo ódio e pela cobiça! 

Esses dias terminei de ler um livro da psicóloga americana Melanie Joy — Por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas: uma introdução ao carnismo (Cultrix, 2014) — e tomei um susto com um dado. Somente nos Estados Unidos, 10 bilhões de animais são mortos por ano para consumo. Nesse número não estão incluídos "frutos do mar". Ou seja, por ano 10 bilhões de escravos morrem nos Estados Unidos para que você, senhor deste metafórico engenho, possa mastigar, digerir e evacuar corpos, evacuar escravos (o número no Brasil deve ser também apavorante, já que somos "grandes exportadores de carne"; pense no mundo todo e vá multiplicando as dezenas de bilhões). É uma necessidade? É claro que não, não somos carnívoros para que comer animais seja uma necessidade. Mas tentamos criar a necessidade, justificamos nossa imoralidade fingindo que comer carne, tomar leite, comer ovos é imprescindível. Ora, para os julgados senhores de escravos do passado, muito insatisfeitos com a exigência britânica sobre o findar da escravidão, a mão-de-obra escrava também era extremamente necessária. A riqueza e os trabalhos da época dependiam dessa prestação de serviço. Podemos julgá-los se ficaram estarrecidos diante da obrigatoriedade da abolição? Acho que não. Cada um cria as necessidades que lhe convém e cada opressor sabe muito bem como justificar sua opressão. Não pensemos em opressores como vilões de novela que tramam os horrores mais engenhosos enquanto esfregam as mãos. Aquele que castiga, tortura e mata inescrupulosamente muitas vezes acha que "tinha" que fazer o que fez e que tudo era necessário e justificável. É o mesmo que fazemos em relação à escravidão animal. Mas nossa alegada necessidade cega já não é um válido pedido de perdão. Ninguém perdoa Stálin por ter matado milhões de indivíduos sob seu regime, por mais que ele não se pensasse má pessoa, por mais que ele achasse necessário eliminar opositores. Os bastidores de nossa crueldade estão expostos. Se continuamos esse show de horrores, somos responsáveis por nossa vileza. Alegar ingenuidade é o supremo cinismo. 

Quem diria, a história nos mostrando que mesmo o senhor de engenho tratava melhor seus escravos do que tratamos "nossos" animais. Infelizmente essa abolição não está tão próxima de chegar. Muitos oprimem muitos. O homem do sul oprime o homem nordestino. O homem nordestino oprime a mulher magra. A mulher magra oprime a mulher gorda. A mulher gorda oprime o homem aleijado. O homem aleijado oprime o rapaz homossexual. O rapaz homossexual oprime o vizinho negro. O vizinho negro oprime a criança indefesa. A criança indefesa oprime a mulher feia. A mulher feia oprime o homem judeu. O homem judeu oprime o subordinado católico. O subordinado católico oprime o cunhado indiano. O cunhado indiano oprime o parente com problemas psíquicos. E todos eles oprimem os animais. Vítimas fazem vítimas, é o que sempre digo. Nós fazemos vítimas sem necessidade. Se há alguma classe que precisa mesmo da nossa pena, da nossa misericórdia, essa é a classe dos animais, que vivem numa escravidão que nós, homens, mulheres, negros, brancos, inventamos para eles.

sábado, 13 de dezembro de 2014

O que Deus tem a ver com isso


Encontro, amiúde, veganos que creem em Deus e acreditam que os animais são “uma graça de Deus”. Como não gosto de conversas religiosas (nem gosto muito de conversa, na verdade), deixo que o assunto morra com um aceno de cabeça, um sorriso sonso ou simplesmente não dou prosseguimento aos comentários na internet. Costumo querer argumentar sobre isso quando sei que tenho alguma chance de inspirar dúvidas e mudanças; se vejo que o debatedor está numa sessão hipnótica que pode durar uma vida, não perco meu tempo – para mim, o tempo que tenho para usufruir é só o de um ciclo e somente nesta terra, não podendo ser desperdiçado. No entanto, meu pensamento não é modorrento como meu papo. Eu realmente gostaria que as pessoas se livrassem dos pesados grilhões imaginários de Deus e eu realmente gostaria que os veganos se propusessem a divagar mais sobre isso para aprimorar suas condutas no que diz respeito à causa animal. Quando você defende animais (que são vítimas da escravidão e das papilas gustativas de uma espécie que acha fancy ser gourmet) e ao mesmo tempo acredita em Deus, algo se perde. Obviamente você se perde porque desperdiça a própria breve existência com um delírio, mas os animais perdem muito mais. Ao estarmos certos de que no final das contas haverá um juiz para justiçar os oprimidos, ficamos um pouco preguiçosos e conformados. “O que esses comedores de porcos fazem é horrível, mas Deus está olhando e tomando notas”. Espera-se por uma justiça que nunca virá.

Existem inúmeros argumentos que contestam a existência de Deus, assim como há uma porção de réplicas cósmicas para aqueles argumentos. A usual é “você não pode provar que Deus não existe” – que pode ter a continuação, feita por céticos requintados “não-radicais”, em “portanto o ateísmo é uma tolice e todos deveriam ser agnósticos”. Não concordo com isso. Mas estou indo rápido demais.

No começo deste ano, li um livro chamado A goleada de Darwin. Faz parte da minha longa lista de livros sobre a evolução que pretendo destrinchar para me especializar, de maneira diletante, num tema que é fabuloso (não entendo como não podem achar fabulosa, por exemplo, a explicação para o desenvolvimento da asa de um morcego) e sempre me interessou. É um livro modesto que eu estava prestes a recomendar como “leitura nota dez” para colegas que quisessem entender os mecanismos básicos da evolução e a contenda entre evolucionistas e criacionistas. Após anos de convívio com intelectuais que tentavam me empanturrar com textos absurdos de Foucault e Deleuze, desprendi-me das convenções e das frases feitas obrigatórias para atestar genialidade (“Foucault escreve deveras bem”) e assumi que a escrita que eu valorizo é aquela que consegue ser clara, com bom vocabulário, meio literária, explicativa. Por que eu tenho que admirar alguém que trata um assunto já difícil com um texto extremamente prolixo? A prolixidade é, muitas vezes, o recurso patético de quem não sabe escrever, não sabe ensinar ou não sabe nem o que fala. Ao ler A goleada de Darwin até o penúltimo capítulo, eu sabia que estava diante de um livro simples, esclarecedor, com conteúdo – um material que merecia compartilhamento. O autor, Sandro de Souza, explica como a evolução funciona e quais as discórdias entre a criação e a seleção natural. Parecia que tudo correria como esperado. Até que no último capítulo o autor diz considerar, sim, possível a união entre criacionistas e evolucionistas, como quem diz “um biólogo evolucionista não cai em contradição quando revela crer em divindades”. Foi uma finalização de livro lastimável, já que foi no decorrer dos capítulos anteriores que eu tive um “click” sobre a impossibilidade de essas duas vertentes andarem juntas. O livro continua sendo interessante. Exceto o último capítulo.

O que os capítulos anteriores do livro de Sandro de Souza me fizeram pensar contribuiu muito para o assentamento do meu ateísmo. Antes, quando um agnóstico me abordava com seu ar monástico para ironizar minha tomada de posição (radical e pueril, pare ele), eu simplesmente retrucava: “mas por que Ele existiria?” Hoje eu teria uma fala melhor. Aliás, duas falas.

Suponho que todos que me leem tenham a evolução como um fato. E suponho que conheçam um pouco da história toda. Muitos devem acreditar que Deus (ou “uma força superior”) foi o responsável pelo desenrolar da evolução. Eu não partilhava dessa ideia, mas partilhava da ideia de que ela era compreensível (“não acredito que Deus seja responsável pela evolução, mas não é tão obtuso que alguém pense isso”). Após o “click”, não acho mais.

Caracteres homólogos

A história da terra envolve números na casa dos bilhões. Antes de uma vida mais complexa aparecer, o mundo ficou por aproximadamente um bilhão de anos somente com bactérias. Digamos que Deus estivesse regulando tudo isso. É uma entidade para a qual não existe uma severa noção de tempo: milhares de anos, para Ele, podem ser como um segundo nosso e só Ele pode entender de fato o que significa redenção eterna ou danação eterna, porque para nós, humanos, a eternidade parece uma coisa muito estapafúrdia. Ele estava lá, esperando por um bilhão de anos para que, finalmente, decidisse tornar alguma bactéria mais complexa. E a evolução foi acontecendo. Alguns animais que apareceram no mar foram para a terra e alguns deles voltaram para a água milhares de anos depois, gerando mamíferos aquáticos (a baleia tem um ancestral terrícola, por exemplo). Apareceram animais que evoluíram para outros tantos com órgãos homólogos (Deus sempre soube que os dedos de um gato fariam sentido quando comparados à mão humana, pois o mesmo arquiteto pode usar as mesmas bases para criar ou permitir a evolução de diferentes bichos). Deus sempre esteve coordenando os parentescos e decidindo quando algum grupo de animais se separaria dos seus por meio de uma barreira geográfica e originaria uma espécie diversa. Deus estava lá quando apareceu o primeiro símio. Até que, um dia, Ele ficou exausto de tantos animais com vidas “vãs” e decidiu dar esclarecimento a uma espécie. Há pessoas que acreditam que os homens têm alma e os animais, não. A elas eu pergunto onde exatamente está o primeiro ser com alma da linha evolutiva. Chimpanzés são os parentes vivos com os quais mais temos semelhanças (digo isso porque, pensando evolutivamente, todos somos parentes, em maior ou menor grau, de todos os animais), mas os cristãos duvidam que eles tenham alma. Alma é mérito do Homo sapiens. Contudo, quem conhece a evolução sabe que a separação por espécie é muito arbitrária e desejosa de organização. Não podemos tirar alguém de sua linha evolutiva e dizer “esse é certamente o primeiro de sua espécie”, porque a evolução acontece de modo gradual e as divisões são feitas mais para fins de organização do que de mudança severa. O pai do primeiro Homo sapiens também poderia ser um Homo sapiens e talvez o filho do primeiro Homo sapiens fosse até menos Homo sapiens que seu avô. Mas a ciência precisa catalogar, precisa determinar o momento em que uma espécie se separa de outra na linha evolutiva. Qual foi, então, o primeiro ser a quem Deus decidiu dar uma alma? Se esse ser já era Homo sapiens, mas era extremamente rude, não possuía uma cultura elaborada – mesmo assim podemos dizer que ele já possuía alma? Quer dizer, então, que um dia Deus olhou para os animais de uma linha evolutiva e disse: “você terá a alma que seu pai não teve”? Se acreditamos na evolução como um fato (abundantemente comprovado), sabemos que ela opera através de uma sequência muito longa de gerações. Se a evolução fez o Homo sapiens surgir do Homo erectus e as pessoas acreditam que somente o Homo sapiens possui alma, podemos dizer que o pai do primeiro Homo sapiens (que seria, para fins de organização, um Homo erectus) não possuía alma. Um crente, não constrangido com esse despropósito, dirá que Deus precisava escolher alguém, em algum momento, para colocar alma. Como eu disse, se o filho do primeiro Homo sapiens tiver mais características de Homo erectus que seu próprio avô, mesmo assim ele ganhou uma alma (pelo visto, sem merecer, para os parâmetros do próprio Criador). Seu avô vai apodrecer na terra como todos os outros animais. A ele algo grandioso foi reservado, pois Deus decidiu que a partir de seu pai todos daquela linhagem teriam alma. Deus pode andar de mãos dadas com a evolução? Parece que não.

Alma: somente para o último

"Repito: os humanos não descendem de macacos. Temos um ancestral em comum com eles. Por acaso, o ancestral comum seria muito mais parecido com um macaco do que com um homem, e provavelmente o chamaríamos de macaco se o encontrássemos, há cerca de 25 milhões de anos. Mas embora os humanos tenham evoluído de um ancestral que poderíamos sensatamente chamar de macaco, nenhum animal dá à luz uma nova espécie instantaneamente, ou pelo menos não a um ser tão diferente de si mesmo quanto um homem de um macaco, ou mesmo de um chimpanzé. A evolução não é assim. A evolução é um processo gradual de fato, e além disso só tem poder explanatório sendo gradual. Enormes saltos numa única geração – como na ideia de uma macaca dar à luz um ser humano – são quase tão improváveis quanto a criação divina, e excluídos de consideração pela mesma razão: estatisticamente improvável em demasia. Seria ótimo se os que se opõem à evolução se dessem o pequeno trabalho de aprender ao menos os rudimentos daquilo a que se opõem". 
(Richard Dawkins em O maior espetáculo da Terra)

Nesse mesmo livro, O maior espetáculo da Terra, Dawkins cita uma frase de Darwin, retirada de A origem do homem, que sintetiza bem o que significa a impossibilidade de declarar que exatamente-no-ano-x-tivemos-o-primeiro-autêntico-homem-na-Terra: "Em uma série de formas que passaram de modo gradual e imperceptível de alguma criatura simiesca ao homem como ele hoje existe, seria impossível fixar em algum ponto definido onde o termo 'homem' deve ser usado". 

Essa explanação pode também levar ao questionamento daqueles que acreditam que “Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança” e ao mesmo tempo aceitam a evolução. Ora, então Deus sempre foi uma entidade "humana" que fez o universo e esperou bilhões de anos para dar vida a uma figura (o homem) que fosse Sua imagem e semelhança? Isso nos leva à ideia de que o homem é a ponta final da evolução, a espécie superior à qual Deus sempre quis chegar. Converse com qualquer biólogo evolucionista sobre a motivação teleológica da evolução e receberá uma aula gratuita para corrigir esse descabimento.

[rebatendo argumentos que tentam defender que um macaco é superior a uma minhoca] "'Os macacos [e outros animais "superiores"] são mais hábeis para sobreviver do que as minhocas [e outros animais "inferiores"]'. Isso não contém um pingo sequer de sensatez, muito menos de verdade. Todas as espécies vivas sobreviveram pelo menos até o presente. Alguns macacos, como o mico-leão-dourado, estão em risco de extinção. Têm mais dificuldade para sobreviver do que as minhocas. Os ratos e as baratas prosperam, apesar de serem considerados por muita gente como 'inferiores' aos gorilas e orangotangos, ambos perigosamente à beira de extinção". 
(Richard Dawkins em O maior espetáculo da Terra)

O animal mais "evoluído" é o que está melhor adaptado. Um homem está adaptado à terra e tem condições de sobreviver nela. Um cavalo-marinho está adaptado à água e sobrevive bem nela. Troque o ambiente dos dois e verá que o conceito de superioridade não faz sentido. Se repentinamente a Terra for atacada por um corpo estranho e pesado e toda a humanidade morrer, a barata que permaneceu viva e vai procriar certamente se mostrou muito mais "evoluída" por sua surpreendente adaptação. 

Essa primeira parte nos leva a algumas ponderações interessantes sobre a ideia de Deus e o fato da evolução serem como água e óleo. Vamos considerar que nem todo mundo percebe Deus e Sua criação do mesmo modo e formular algumas perguntas (comuns e/ou veganas) em cima de alguns casos: 

1. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que somente o homem (Homo sapiens) possui alma – Deus em algum momento decidiu dar alma a um ser da linhagem e aqueles que viriam a partir dele teriam alma? Isso significa que o pai do primeiro agraciado com alma não tinha alma? Isso também significa que um animal teria parido um animal de espécie diferente da dele e por isso somente o Homo sapiens possuiria alma, e não o Homo erectus? Ou seja, nossos ancestrais não tinham alma, mas de repente passaram a ter? Um rapaz primitivo estava lá, cavoucando um ninho, e de repente recebeu alma, coisa que nem sua mãe, nem seu pai, nem seus irmãos teriam? Uma águia deu o azar de não ter alma só porque não era a imagem e semelhança de Deus? Ou será que a águia só não tem alma porque ela não é capaz de inventar histórias sobre líderes invisíveis reguladores de moral e doadores de almas? Talvez a águia só não tenha alma porque isso não faz nenhum sentido para a sobrevivência e perpetuação dela na Terra. Se isso fizesse, ela teria – senão morreria, mal adaptada por não conceber a noção de alma. 

1.1. Pessoas que creem em Deus muitas vezes tentam explicar a razão de nossos sofrimentos na Terra. São testes, são provações, são coisas sobre as quais Deus não quer decidir agora: mas sofrer aqui pelo bem pode garantir para nós um espaço no céu. Sofremos para obtermos felicidade eterna posteriormente. Nosso sofrimento tem explicação e é efêmero. E o sofrimento dos animais que não têm alma? Qual é o sentido dele? Por que sofrem de graça? Deus acha bom que animais sofram porque não têm alma? Mas eles sentem dor e não serão compensados por um póstumo paraíso que reparará tudo. Por que razão eles sofrem nas mãos uns dos outros e dos humanos? Um leão às vezes leva horas para comer um veado até um ponto em que ele (o veado) não esteja mais ciente do que está acontecendo. Por que esse veado precisa sofrer assim se Deus é tão benevolente e só quer que soframos para que mereçamos o céu (considerando que o veado, sem alma, jamais irá para o céu)? Por que milhares de porcos morrem todos os dias após uma vida miserável sem espaço para se mexer, sem luz, sem comida adequada, sem socialização com outros porcos se esse sofrimento jamais será compensado para eles? 

2. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que todos os animais possuem alma – suponho que nessa categoria estejam somente veganos, pois achar que os animais possuem alma e comê-los parece um grande desrespeito, já que Deus não permitiria que comêssemos seres com alma (bom, talvez permita, quem conhece o Deus do Antigo Testamento e o do Novo sabe que Ele muda muito de opinião). O que exatamente são "todos os animais"? Todos os seres vivos que pertencem ao reino Animalia? Então um molusco possui alma? 

3. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução e que somente animais domésticos possuem alma (quando Heitor e Bingo morrerem, irão juntos para um lugar onde não haverá vacas nem porcos) – por que somente seu cachorro e seu gato são seres com alma? Por que Deus não daria alma a um porco, que é mais inteligente que um cachorro? Porcos e cachorros têm um ancestral comum. Em que momento das linhagens um passou a ser tão refinado que mereceu ganhar uma alma em detrimento do outro? Cães vêm de lobos, são quase como lobos domesticados. Se os lobos não têm alma e os cães têm, quer dizer então que Deus decidiu dar alma aos cães só porque eles passaram a viver ao redor e dentro de casas humanas? Alma, então, é apanágio somente de animais domesticados? 

4. Aos que creem que Deus existe e é o responsável pela evolução, mas ninguém possui alma (não há céu, não há inferno, há apenas um Criador, um "ser superior" moralista) – a evolução é perversa. Se Deus está  por trás dela, podemos dizer que Deus é perverso? Para que uma espécie dê lugar a outra, algumas vezes acontece uma guerra por território e comida. Darwin se baseou no pensamento de Malthus para teorizar a seleção natural: o crescimento da população ocorre em progressão geométrica enquanto a quantidade de alimentos cresce em progressão aritmética. Assim, não há recursos para todos e disputas pela escassez começam a acontecer. Quando uma ilha, por exemplo, é ocupada por duzentos ratos, mas há somente comida para cem, sabemos que muitos ratos morrerão de fome. Animais mal adaptados a uma mudança climática, a uma alteração no padrão alimentar (uma espécie carnívora passa a viver num lugar em que só há vegetais para comer) ou à seleção sexual costumam sofrer muito antes de morrer. Por que sofrem, se a moral condena o sofrimento sem sentido? E se a moral divina não condena o sofrimento e o tem como natural, por que achamos certo matar galinhas, mas execramos os chineses que matam cachorros? Se é bom que a evolução ocorra "de modo natural", por que preocupar-se com o sofrimento de povos que não têm nada a ver com a propagação dos nossos genes? Por que não concentramos nossas preocupações somente em nossos filhos (ato pró-evolucionário) em vez de sentir pena e querer adotar um abandonado filho alheio (ato antievolucionário)? Sofrer por não estar bem adaptado e morrer em decorrência disso faz parte da evolução.

Acho que são questões cruciais para pensarmos exatamente que Deus é esse que criamos para acreditar. A frase de Voltaire "se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo", muito usada por cristãos, na verdade tem mais sentido se usada por ateus numa continuação óbvia: "e como Ele não existe, nós o inventamos". 

Um cético não convencido pode se apegar àquele paradoxo de que "é impossível provar a inexistência de Deus, então não podemos nos posicionar como ateus". Não acho impossível provar a inexistência de Deus. Essa é a minha segunda fala em defesa do ateísmo.

Nós sabemos que o Papai Noel não existe porque sabemos exatamente quem o criou e sabemos que antes dessa criação ninguém tinha necessidade da existência dele e não há relatos sobre ele. Sabemos que uma figura não existe quando descobrimos quem deu origem a ela. Não podemos dizer que alguém, um dia, deu origem a Deus e que essa ideia perpetuou apenas culturalmente, como no caso do Papai Noel. Há casos de civilizações isoladas que tinham seus deuses e os cultuavam como nós cultuamos nosso Deus. Não devem ter aprendido essa religiosidade com outros povos, já que estavam isolados por centenas/milhares de anos. Isso nos dá a entender que Deus parece uma ideia estrutural, fruto das nossas mentes. Mas, esperem, "mente" é uma palavra que pode ser perigosamente abstrata, prefiro usar cérebros. Nossos cérebros (é nessa hipótese que acredito) criaram a ideia de Deus ou de deuses: enfim, nossos cérebros humanos têm necessidade de um criador, seja ele um deus, uma deusa, vinte deuses de formas variadas. Se essa ideia sobreviveu por tanto tempo, pode ser que tenha sido elementar para que nós sobrevivêssemos na história da evolução, e pode ter começado há muito tempo, antes mesmo do aparecimento do Homo sapiens, talvez de modo rudimentar (não tenho muito conhecimento sobre o Homo erectus para dizer se ele já manifestava algum fiapo religioso). Não só isso propiciou a sobrevivência e a perpetuação da espécie (o homem de Neandertal enterrava seus mortos e foi extinto), pois devemos sempre pensar a boa adaptação como um provável conjunto de fatores favoráveis que vão aparecendo gradualmente e conquistando permanência. Só que a religião para o homem parece ter sido, em algum período crítico, como a perna para um aleijado. Portanto, comungo a ideia de que Deus é fruto de nossos cérebros. Como poderíamos provar sua inexistência? Esquecendo aplicações éticas na ciência, poderíamos provar a inexistência de Deus se descobríssemos a região cerebral que precisaria ser "apagada" para que a ideia de Deus também se apagasse. Infelizmente, tal experimento só seria possível se as cobaias vivessem separadas do resto do mundo, sem poder absorver uma cultura já saturada de religiosidade e outras superstições. Sem cultura religiosa e sem aquele pedacinho do cérebro que poderia ser a origem de Deus, descobriríamos se Deus seria apenas uma criação cerebral. Algum desavisado pode dizer: "mas se a ideia de Deus foi importante para que nossa espécie sobrevivesse, os outros animais também precisariam dela para sobreviver". Ora, negativo. Cada espécie é um caso e precisa de coisas muitíssimo diferentes para sobreviver se comparada às outras. Uma águia precisou de um bico adunco para sobreviver e não é por isso que eu também preciso. Os animais, ao que parece, não sentem necessidade de Deus. Deve ser por isso que eles não estão nos planos do paraíso. Somente é martirizado pelos desejos de Deus quem acredita na existência de Deus. Bem, tragicamente, quem não acredita também é martirizado, pois vive numa sociedade que consegue misturar até o público com o religioso. É por causa disso que a militância ateísta faz sentido: porque o ateu militante quer que seus pares tenham coerência e conhecimento, ele quer, como o iluminista enciclopedista, que a sociedade em que ele vive possa se esclarecer. Mas isso é outra história.

E O QUE OS VEGANOS TÊM A VER COM ISSO?

A evolução moderna nos mostra que somos todos aparentados aos outros animais. Em Freud – além da alma, filme de 1962 com roteiro de Sartre, há bem no início uma fala simples, mas atinada, sobre as três grandes revoluções que abalaram a ideia que o homem tinha sobre si mesmo como superior e central: a revolução causada por Copérnico, ao tirar a Terra do centro do Universo; a revolução causada por Freud, ao tirar o homem do palácio do autocontrole, do livre arbítrio e da vontade consciente; e a revolução causada por Darwin, ao tirar o homem da sua pretensa superioridade diante de outras espécies. Realmente essas três bombas abalaram o que pensávamos sobre nós mesmos. Eu, como vegana, pude sentir o peso da nossa arrogada altivez quando percebi que comíamos carne e usávamos outros animais para roupas e trabalhos forçados justamente porque achávamos que éramos a espécie à qual toda a história da evolução quis chegar. Não me interessa que leões comam carneiros. Não sou um leão e não vou escolher quais as características de um leão que justificarão maus hábitos meus (se querem ser como os leões, não só comam carne, mas comam carne crua, matem seus filhos que nascerem com deficiências, matem filhos de fêmeas que vocês têm em vista, lutem até a morte com machos que estão interessados na mesma fêmea, não trabalhem e passem a maior parte do dia dormindo, à espera de outra caçada). Portanto, faz sentido pensarmos seriamente sobre a evolução se somos veganos.

Se somos veganos e pensamos seriamente sobre a evolução (lemos sobre ela), a ideia de Deus não faz sentido. Como expus acima, como é que Deus dá alma a um ser e não dá alma a seu pai? Como é que Deus permite o sofrimento em vão dos animais? Não é possível não perceber que falar de Deus atrapalha nossa militância em prol dos animais. Então você pode pensar que fica revoltado com o que acontece, arregaça as mangas, mas mesmo assim espera que Deus acerte as contas no final. Por mais que você negue, isso colocará um pouco de freios na sua atitude. Você continuará indo a churrascos de modo sorridente, compreensivo, tolerando piadas ruins e gastas porque acha que não tem condições de julgar ninguém e quem vai julgar é Deus. (Interessantemente, duvido que você seria tão plácido e risonho se um vizinho que mata um gato por dia, com as próprias mãos, convidasse, de maneira polida [ele odeia gatos, mas simpatiza com você e com outros humanos], você para um café com cupcake, mesmo que o cupcake fosse vegano.) Se Deus estivesse agindo, não precisaríamos assinar petições diariamente.

Os animais não acreditam em nosso Deus. A porca que está há mais de um ano deitada na mesma posição, recebendo ração no gargalo, parindo dez porquinhos uns atrás dos outros sem sequer poder cheirá-los e cuidar deles não quer saber de Deus, de justiça divina, de pagamento póstumo. Ela gostaria que os humanos, que não são carnívoros (por mais que repitam essa baboseira como uma oração), parassem de explorá-la, até porque eles não dependem da carne dela para sobreviver e ter saúde. Quando esperamos que Deus faça alguma coisa, esperamos que um duende transforme o mundo para nós. Perdemos energia. Perdemos tempo. Nós só temos essa vida aqui (que é maravilhosa e possui muito significado se soubermos aproveitá-la, sem que Deus precise estar aí para conferir sentido à nossa morte – vamos amar os animais como nossos irmãos e aceitar que morreremos exatamente como eles), os animais só tem essa vida. Rezar, colocar nas mãos de Deus jamais fará um animal sair de sua condição miserável. Deus é um delírio, um atraso, uma acomodação. É claro que não é obrigatório que um vegano se torne ateu. Mas que ajuda, ajuda. Tanto para o próprio vegano quanto para os animais.

"Se Deus conhecia de antemão os pecados de que a humanidade seria culpada, Ele foi, então, claramente responsável por todas as consequências desses pecados quando decidiu criar o homem".
(Bertrand Russell - Matemático e filósofo ateu) 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Mulherismo


Onde estavam as feministas deste país? Estavam à espreita, esperando que Aécio Neves chamasse Dilma e Luciana Genro de "levianas" para poder sair do fundo das sepulturas com seus ares de Thriller. E então a classificação pejorativa, mas não necessariamente machista, que poderia ser lançada a um candidato homem — "candidato, o senhor está sendo leviano" —, motivou uma multidão de alienadas a distorcer discursos e apelar para o papelzinho (papelão?) de vítimas. Saudade do tempo em que as feministas liam Simone de Beauvoir, sentiam-se livres e seguras para trabalhar de maneira confortável — preciso analisar a subentendida submissão ao sofrido padrão de beleza quando uma autoproclamada feminista que trabalha oito horas por dia usa salto alto por opção? — e preocupavam-se com o direito da mulher de tomar decisões sobre a sua vida sem neuroses, sem amarras, sem parâmetros. Estou um pouco cansada do neofeminismo. Principalmente me cansei dele depois de parar de comer carne, leite e ovos. Porque eu vi que o feminismo no qual eu acreditava era apenas mulherismo. Há feministas que se preocupam com as fêmeas. A maior parte delas se preocupa somente com as mulheres. 

(Não faço apologia a nenhum candidato. Tanto Dilma, fajuta, quanto Aécio, afetado, gostam de enriquecer o bolso dos criadores de animais. Aécio é amigo íntimo de pecuaristas e lançou sua candidatura numa festa de rodeio. Dilma sente-se realizada porque o seu partido "colocou carne no prato dos brasileiros". Como não sou trouxa para acreditar na balela autoritária de "quem não se decide pela esquerda ou pela direita está em cima do muro", querendo me obrigar a ficar cega diante da tendenciosa Veja ou da também tendenciosa Carta Capital — cada revista defende seu ponto; só não vale dizer que apenas uma é parcialíssima — e querendo me obrigar a abraçar uma causa com a qual não concordo, posso ver ambos os lados e pesar as proezas e as tragédias de cada um. A despeito de o muro ser colocado como o apoio dos frouxos, acho que aqui de cima eu enxergo as coisas de um jeito muito mais amplo, diferente, sem fanatismo. Não coloco minha mão no fogo por político nenhum. Posso votar no que mais presta após uma análise de balança, mas não vou chamar um de anjo e o outro de demônio — dicotomia que foi o fiasco do discernimento de "politizados" que passaram a usar a internet como tribuna.) 

Toda vez que você bebe leite, está bebendo também trauma, dor, estupro, roubo. Para que você pudesse beber leite, vacas foram artificialmente selecionadas para produzir mais leite. Isso quer dizer que dentre cem vacas, por exemplo, somente as trinta mais leiteiras foram "autorizadas" a se reproduzir. Os filhotes cresceram. Nova seleção: as fêmeas mais leiteiras é que puderam se reproduzir, a fim de que uma "evolução nas mãos do homem" acontecesse. Até que, após muitas gerações, os criadores puderam chegar a obter vacas que davam muito mais leite que suas ancestrais. A seleção artificial pode ser muito cruel quando quer priorizar certas características sem medir as consequências — é o mesmo que acontece para que possamos obter cães de raça, e é por causa disso que tantos cães desse tipo são sujeitos a doenças ou características físicas bizarras que prejudicam seu bem-estar (um tema para outra postagem) —, mas nem ela foi capaz de suprir, no caso das vacas, toda a sede de leite que a humanidade tinha. Esperar que vacas leiteiras, artificialmente selecionadas, pudessem dar de mamar a toda essa gente, inclusive aos asiáticos intolerantes à lactose que quiseram ter seu direito de beber leite preparado de modo especial, seria uma quimera. Você, a coitada que sofre demais porque um candidato chama mulheres de levianas, está apenas na entrada desse show de horrores em que as protagonistas são vítimas de fato. 

Se a seleção artificial não supre a demanda, a indústria precisa usar outros meios para fazer com que vacas produzam mais leite. Afinal, a população está sempre crescendo, as pessoas não conseguem viver sem derivados do leite e existe aquela lendária história de que é somente o cálcio do leite que previne a osteoporose. O leite está no café, no achocolatado, na manteiga, no queijo, no requeijão, na maior parte dos doces comprados em confeitarias — ou seja, as receitas estão viciadas nesse alimento para bezerro que se tornou ingrediente culinário. Em nome do paladar e da saúde dos ossos humanos, vacas sofrem abuso. E essa saúde dos ossos é muito interessante, já que os homens passaram a tomar leite há apenas aproximadamente dez mil anos. Devemos deduzir que nossos antepassados que não bebiam leite estavam sempre fraturados, morrendo agonizando por causa de ossos quebrados. Como o gênero Homo conseguiu prosperar se passou mais de dois milhões de anos sem bebericar leite de vaca? 

Não imagino que seja difícil entender o que acontece com as vacas que são escravizadas pela indústria do leite. Explico como se narrasse a uma criança de cinco anos, que ficaria horrorizada — (então você força seu filho a tomar algo cuja procedência o deixaria aos prantos?). Uma visão geral, do que comumente acontece (antes que algum ventríloquo que não conseguimos identificar venha com "meu tio tem vacas leiteiras e não é bem assim"). Primeiro, uma vaca é colocada em uma indústria. Não há sítio e ela não sorri como nos rótulos das caixas de leite. Ela fica geralmente em pé ao lado de inúmeras outras vacas. O ambiente é cinzento, algumas vezes sujo e muito pequeno, pois a indústria pensa que vacas são feitas para dar leite a humanos, e não para ficar passeando e pastando pelo campo. Depois, a vaca é inseminada artificialmente. Uma máquina ou uma mão inserem sêmen dentro da vagina da vaca para que ela possa produzir um bezerro. O que estimula a vaca a dar leite? A mesma coisa que estimula você, humana mulherista, a dar leite: um bebê dentro de si. É muito bonito quando uma mãe mulher percebe que seus seios começam a produzir leite para o bebê que virá. A vaca já não pode esperar todo esse romantismo, já que não há feministas suficientes para defender seu direito de ser mãe e amamentar seu bezerro: logo que o bezerro nasce, ele é retirado dela para que não mame o leite que é "por direito" dos humanos. Se vacas são propriedade de humanos, o que elas produzem — leite, bezerros — pertence aos humanos. Para que você pudesse tomar seu leite quente num cafezinho espresso, um bezerro foi retirado de sua mãe: logo, você está roubando o leite de um bezerro. Proudhon dizia que a propriedade é um roubo. Não sei quanto à propriedade das terras, mas a propriedade animal é claramente um roubo asqueroso. Você não está roubando o leite de um bezerro por necessidade. Está roubando por egoísmo, relaxo e falta de compaixão. Tão humanitário. E os veganos, com seus leites de amêndoas, é que são extremistas. 

Prossigamos: após o bezerro ser retirado da mãe — algumas vezes para virar vitela, que não é nada mais do que um bezerrinho jogado num espaço onde ele não pode se mexer a fim de não trabalhar os músculos para "não prejudicar o gosto da carne" —, de forma nada sutil ou gradual, sem rituais de passagem, a vaca é sugada em suas tetas horas por dia. Isso causa feridas e sangramento em suas tetas. Mas a indústria não quer saber disso, já que você PRECISA tomar leite, comer manteiga e socializar sem ser chamado de "o chato que não come nem queijo". É justo que vacas adoeçam para que você possa brindar sua vida vazia com um copo de milkshake. Só que o leite não é eterno, enquanto a sede humana por leite de outra espécie é infinita. Então é preciso inseminar a vaca novamente, o que no meu entendimento se chama estupro, já que a vaca foi forçada a gerar outro filhote. Para mulheres estupradas, todos os holofotes. Para vacas estupradas, todo o desprezo das mulheres estupradas que tomam leite diariamente. Vítimas também fazem vítimas, lembremos disso. O ciclo da vaca estuprada que tem seu bezerro roubado de si (muitas berram por eles; imagine você, mulher, acabar de dar à luz e ter seu filho retirado de você, imagine) continua até que a vaca se torne inútil e vá para o prato de alguém. Nem a mulher mais traumatizada que se sentiu usada (palavra forte) poderá chegar perto da situação dessas vacas leiteiras que são estupradas por anos, têm seus filhos arrancados delas inúmeras vezes e terminam no sanduíche de alguém que acha que não tem nada a ver com isso. Onde estão as feministas para levantar a voz por essas fêmeas? 


Sítio da Era Blade Runner

Esse sofrimento todo é justificável por causa de um capricho do paladar? Convido novamente os que se orgulham de seus hábitos alimentares a olhar um vídeo curto. "Não consigo ver". Por que não? Defenda seu estilo de vida com coerência, saiba de onde vem o que você come e o que você toma. Acha certo tomar leite e dar leite aos seus filhos? Mostre esse vídeo para eles também. Veganos são muito radicais? Olha, a comida que eu como e a bebida que eu bebo vêm de cenários tranquilos. Eu posso ver de onde vem o que como enquanto como. Eu posso, enquanto como arroz e feijão na frente do computador, assistir a vídeos que mostram a colheita de arroz e de feijão. A procedência do meu alimento não horroriza, não me impede de me alimentar. Beba leite enquanto vê o vídeo abaixo. Chame seus sobrinhos. Você deve conseguir ver, sem palpitar, vídeos sobre a produção do que você come — enquanto você come. Os vídeos dos meus alimentos mostram agricultores colhendo cenouras, pessoas torrando erva mate, cervejeiros lidando com malte e lúpulo, trabalhadores semeando grãos e cereais. Sugiro que veja um vídeo sobre salsichas enquanto come cachorro-quente, que veja um vídeo feito dentro de um matadouro suíno enquanto come bacon, que veja uma vaca leiteira berrando ao perceber seu recém-nascido sendo arrastado para longe dela — enquanto você come um "sanduíche natural" com queijo. Vamos conhecer os bastidores das nossas refeições, ouvir os urros dos animais que matamos para comer.



E, feministas: vocês estão sendo muito levianas quando se nomeiam feministas. Eu sei que há uma parcela mínima de feministas que são veganas (duas causas realmente nobres), mas a maioria não quer levar em consideração nada do sofrimento vivido por vacas, porcas, galinhas e outras tantas fêmeas. É por isso que há algum tempo veganos começaram a chamar vocês de mulheristas. Porque a "luta" é incompleta, não é por todas as fêmeas, não é pela igualdade. Por que um homem estupra uma mulher? Para obter prazer egoísta. Ele deve responder na justiça pelo seu crime. Por que um trabalhador estupra uma vaca? Para obter prazer egoísta. Para ele mesmo e para os outros. Para você, que paga para uma vaca ser estuprada e não acha que isso seja crime. Quando uma mulher é estuprada, um homem é o culpado e deve pagar. Quando uma vaca é estuprada, toda a sociedade é culpada e não paga. E todos se deliciam num festim diabólico.